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FORMAÇÃO CONTINUADA EM SERVIÇO DO PROFESSOR DA CLASSE HOSPITALAR E DOMICILIAR:UMA REALIDADE NA CIDADE DE SALVADOR.

 Postado por Jucilene, Magaly e Tainã

Autor: Jucilene Machado [1] e-mail jucimachado²ig.com.br
Autor:Magaly Alencar [2] e-mail magaly01@gmail.com
Autor:Tainã Rodrigues[3] e-mail tainasr@yahoo.com.br
RESUMO
Este artigo versa sobre a formação continuada do professor de Classe Hospitalar e Domiciliar, abordando uma realidade da cidade de Salvador. A relevância social e pedagógica da temática originou os objetivos que nortearam o estudo: conhecer a realidade da formação continuada dos professores em serviço que atuam nas classes hospitalares e domiciliares da cidade de Salvador e identificar se as ações delineadas no plano de ação para a formação do professor neste contexto foram executadas, a fim de responderà problemática: Como acontece a formação continuada dos professores em serviço que atuam nas classes hospitalares e domiciliares da cidade de Salvador–Ba? Trata-se de um trabalho cuja metodologia aplicada foi de uma pesquisa qualitativa com o estudo de caso do grupo de professores que atuam nesta modalidade de ensino. Neste sentido, o referido artigo discute a formação continuada numa visão mais ampla; explana sobre a implantação das Classes Hospitalares e Domiciliares na cidade de Salvador, e de como se configura atualmente, além de abordar sobre a tematização da prática desse professor que atua neste contexto tão (adverso)e desafiador. O estudo se fundamentou nos escritos de Fonseca, Weisze Mazer, tendo como horizonte a validação do direito da criança e adolescente hospitalizados. Tornou-se evidente neste estudo, a necessidade de garantir a formação continuada desse professor no sentido de favorecer uma educação de qualidade para o aluno paciente que se encontra afastado da escola comum em virtude do seu estado de adoecimento.
 
Palavras-chave: Formação continuada. Classe hospitalar. Tematização da pratica.

 
 
 
 
 
1.    INTRODUÇÃO
 
A Classe Hospitalar e Atendimento Domiciliar, é descrita como alternativa de atendimento educacional especializado, ministrado aos alunos com necessidades educacionais especiais temporárias ou permanentes, em razão de tratamento de saúde, que implique prolongada internação hospitalar e impossibilite-os de freqüentar a escola comum. (BRASIL, 2001/2002).
          A legislação brasileira reconhece o direito de crianças e adolescentes hospitalizados e impossibilitados de frequentar a escola comum, em virtude de adoecimento, ao acompanhamento pedagógico-educacional. A lei propõe que a educação em hospital seja realizada através da organização de classes hospitalares. A prática pedagógica no ambiente hospitalar e/ou domiciliar exige do professor maior flexibilidade, dinamismo, sensibilidade, equilíbrio emocional, e principalmente, competências e habilidades que correspondam a uma realidade tão específica e adversa.
          Diante desse contexto, questiona-se: Que perfil deve ter o professor que trabalha diretamente com esses alunos pacientes? Como dever ser desenvolvida a formação desse docente? Quais são os desafios enfrentados no cotidiano da classe hospitalar e domiciliar por esses profissionais? 
          Para atuar em Classes Hospitalares e Domiciliares, o docente deverá estar habilitado para trabalhar com a diversidade humana e diferentes experiências culturais, identificando as necessidades educacionais especiais dos educandos impedidos de freqüentar a escola, em virtude da hospitalização. Portanto,o fazer pedagógico nesse contexto dever ser pautado num currículo flexibilizado, adaptado e diferenciado frente ao processo de ensino-aprendizagem de cada aluno paciente.
          Pesquisas recentes nesta área de Fonseca, 2011; Menezes, 2004; Mazer, 2009, mostram a necessidade de investigação sobre a formação deste professor e também do trabalho que compreende esta temática, uma vez que ainda é bastante escassa a literatura que aborda este tema.
          Sabe-se que as crianças e adolescentes que se encontram adoecidas e/ou hospitalizadas formam um grupo heterogêneo de alunos com necessidades diferenciadas das crianças que freqüentam a escola comum, pois se deparam num momento de fragilidade psicológica, afastados dos familiares, amigos e escola, advindos de contextos sócio-histórico e culturais diferenciados, porém, são capazes de aprender e dar continuidade ao seu processo de escolarização, interrompido em virtude do internamento.
          Segundo o Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2001),o trabalho em Classe Hospitalar e Domiciliar deve ser desenvolvido por pedagogos com habilitação, preferencialmente, em Educação Especial. Tal afirmação deixa lacunas na lei para os profissionais que são licenciados em outras áreas, além da Pedagogia, para atuarem em tal modalidade educacional. Portanto, a Formação Continuada em Serviço deve ser amplamente discutida e estruturada para corresponder a essa realidade que possui uma dinâmica tão diferenciada da escola comum.
          Diante de tal realidade, o presente artigo buscará responder ao problema: Como acontece a formação continuada dos professores em serviço que atuam nas classes hospitalares e domiciliares da cidade de Salvador–Ba? Alguns objetivos nortearam esta pesquisa, a fim de sanar a referida problemática: 1. Conhecer a realidade da formação continuada dos professores em serviço que atuam nas classes hospitalares e domiciliares da cidade de Salvador; 2. Identificar se as ações delineadas no plano de ação para a formação do professor neste contexto foram executadas.
          Em virtude da necessidade do aperfeiçoamento da pratica do profissional que atua com crianças, jovens e adultos hospitalizados e em tratamento de saúde no ambiente hospitalar e domiciliar, o professor deve ter consciência do seu papel nesse espaço, buscando aprimorar conhecimentos que lhe instrumentalize a desenvolvera sua práxis em conformidade com as reais demandas do trabalho docente na Classe Hospitalar e Atendimento Domiciliar.
 
2.    FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES: UM IMPERATIVO EM SERVIÇO
 
          Inúmeras discussões ocorrem no cenário educacional, principalmente no que se refere à formação continuada de professores.
          A tarefa da docência sempre foi muito árdua e complexa, porém nos últimos tempos esta complexidade ampliou e, ainda assim, encontramos alguns mitos que falam da profissão docente como “ensinar é fácil”. No entanto, ensinar sempre foi difícil e requer muita preparação e conhecimento, pois este professor é agente de mudanças que deve acompanhar os avanços da ciência, psicopedagogia, das estruturas sociais, do mundo globalizado, sendo influenciado pelos meios de comunicação de massa, das novas tecnologias e novos valores.
          A formação continuada do professor passa pela condição de que este assuma uma identidade docente, o que supõe ser sujeito da formação e não objeto dela, mero instrumento maleável e manipulável nas mãos de outros. Pensando nisso, Freire (1997, p. 214) afirmava que a “educação necessita tanto de formação técnica, científica e profissional quanto de sonhos e utopia”. Assim, a formação do professor torna-se relevante para sua atuação docente, sobretudo num contexto diferenciado como o hospital.
           Geralmente observa-se que os professores na maioria das vezes não são em nenhum momento consultados sobre sua necessidade de formação continuada ou sobre que assuntos seriam necessários para seu desenvolvimento. Na maioria das vezes, o curso já vem montado, o currículo é fechado, o professor não tem autonomia de mudar, nem opinar sobre suas demandas e interesses.
          A formação de professores para atuação em Classes Hospitalares e domiciliares deve ser diferenciada diante da complexidade do contexto espaço-temporal em que o processo educativo acontece e em virtude da especificidade do atendimento. Além de habilidades técnicas, o docente deve ter conhecimentos sobre os impactos psicossociais da hospitalização, conhecer as enfermidades que acometem os alunos pacientes, bem como o tratamento sob os quais os mesmos são submetidos.
          Fonseca (2011) sinaliza que é necessário ao professor da Classe Hospitalar e Domiciliar, entender que nestes espaços é possível refletir e aprender sobre uma série de questões pertinentes não apenas a escolarização da criança doente, mas também a qualificação profissional do docente.
          Neste sentido, as competências e as habilidades do professor no ambiente hospitalar são diversas, sobretudo no que concerne à escuta sensível e docência. A observação, registro do comportamento e desempenho do aluno, planejamento e avaliação dos objetivos a alcançar são saberes e praticas essenciais para o trabalho pedagógico no ambiente hospitalar.
          Vale ressaltar que o registro diário, o hábito da escrita e a pesquisa devem ser inerentes a qualquer profissional que deseja estar em formação constante, o que não é diferente para o professor da Classe Hospitalar e Domiciliar. Desta forma, quanto maior a consciência e conhecimento das metodologias para o ensino e aprendizagem necessárias na sala de aula, melhor o professor se qualifica em sua atuação, principalmente se houver uma parceria com os demais atores desse processo, como os alunos, familiares, etc.’
          Ciente disto, as atividades propostas pelo professor no atendimento pedagógico Hospitalar e Domiciliar devem ser criativas, dinâmicas, interessantes, contextualizadas, consolidando assim, um currículo significativo e funcional para os alunos pacientes. Certamente, ele pode ampliar as possibilidades de aprendizagem do aluno a partir das diferentes propostas didáticas que atendem às suas especificidades, levando em consideração, a patologia, as questões cognitivas, afetivas, psicológicas, emocionais, bem como o contexto sócio-histórico e cultural.
          Para isto Mazer (2011 p. 385-386) na sua pesquisa, cita que se faz necessário ao professor, saberes que envolvam outras áreas especialmente da saúde como a Medicina e a Psicologia, pois só assim o olhar para a criança hospitalizada se torna integral abrangendo os aspectos educacionais, da saúde e do desenvolvimento biopsicossocial. Sinaliza que, para o atendimento educacional à criança hospitalizada, o professor deve ter conhecimentos multidisciplinares para que fosse possível atender sua integralidade.
          Os sistemas de ensino devem proporcionar a formação continuada dos professores da Classe Hospitalar e Domiciliar, instrumentalizando estes profissionais para lidar com alunos pacientes hospitalizados, garantindo a esses indivíduos o direito do acompanhamento curricular escolar durante seu período de internação, além de ajudá-los a enfrentar seu processo de adoecimento, diante dos impactos psicossociais que a hospitalização gera, frente às enfermidades que acometem os alunos pacientes.
 
3.    CLASSE HOSPITALAR E DOMICILIAR: UM POUCO DESSA TRAJETÓRIA NO BRASIL
 
          O direito e acesso à educação para todos têm suscitado o reconhecimento de uma educação em diferentes contextos, extrapolando os muros escolares, estendendo-se às crianças e adolescentes hospitalizados também pelos fundamentos legais que respaldam a existência da escola no hospital e o atendimento pedagógico domiciliar, em residências e casas de apoio.
          A história das Classes Hospitalares e Domiciliares no Brasil encontram-se em registros que datam de 1600 com atendimento escolar a pessoa deficiente na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. (Esteves apud Fonseca e Ceccim,1999). Já o atendimento pedagógico hospitalar é iniciado oficialmente em 14 de agosto de 1950, na cidade do Rio de Janeiro pelo Hospital Escola Menino Jesus (hospital Público Infantil) e, atualmente, mantém suas atividades direcionadas às crianças e adolescentes hospitalizados.
Em 1971, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN- nº 5692/71 cita o direito “Direito à Educação”, porém não menciona a Classe Hospitalar. Em 1986, no Estado de São Paulo, regulamenta a “Educação Especial nas Escolas de 1º. e 2º. Grau”e “classe especial em unidade hospitalar”.
          Com a Constituição Federal de 1988 aparece “Educação como direito de todos e dever do estado e da família” - “Educação especial para criança com necessidade educacional especial”. Com a Lei 7853 de 1989, surge a “Obrigatoriedade da educação especial em unidades hospitalares”, porém a terminologia classe hospitalar ainda não é encontrada em documentos oficiais, existindo os termos “Classe especial no hospital” ou “Programas de Educação Especial em Unidades Hospitalares”.
          Neste caminhar, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) criado na LEI 8069 de 1990, fala sobre o  “Direito das crianças e adolescentes” - “portadores de deficiência que receberão atendimento especializado”, porém só em 1994 com a Política Nacional de Educação Especial vem reconhecendo o direito das crianças e adolescentes a receberem  a educação em hospital em sala ou leito hospitalar e esta educação no hospital aparece como modalidade de ensino especial já com a nomenclatura de classe hospitalar.
          No ano de 1995 a resolução 41/95 escreve sobre Direitos das crianças e adolescentes hospitalizados, quando versa sobre direito de desfrutar do acompanhamento escolar por meio de programas de educação e acompanhamento do currículo durante a hospitalização.
Neste panorama, a Classe Hospitalar surge como uma modalidade de educação especial em 2001, prestada a crianças e adolescentes afastados da rotina escolar por motivo de adoecimento. O Conselho Nacional de Educação sugere a denominação Classe Hospitalar para este atendimento educacional especializado, ofertado a alunos impossibilitados de frequentar as aulas em razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar, atendimento hospitalar prolongado ou permanencia em domicilio (residencias e casas de apoio), impedindo a interrupção do processo de aprendizagem da criança, para que após este período possa ser reintegrada na sala de aula normal.
          Segundo Fonseca (2011) em maio de 2011, no Brasil já se contava com 128 hospitais com escolas distribuídas por diversos estados. Além da escola para a criança ou jovem hospitalizado, o Brasil tem ainda a modalidade de ensino domiciliar que encontra-se garantido legalmente no documento do Ministério da Educação (Brasil, 2002), que visa viabilizar o acompanhamento da escolaridade de crianças ou jovens que estejam doentes, mas, não sob intenação hospitalar.
          Fonseca (2011) esclarece no final de sua pesquisa sobre a incerteza quanto ao trabalho que todos os hospitais ou instituições mencionadas sejam realmente propostas escolares, uma vez que no Brasil há diferentes compreensões sobre o papel do professor e principalmente do profissional de Pedagogia no ambiente hospitalar.
 
3.1.        O processo de implantação da Classe Hospitalar e Domiciliar em Salvador
 
          No Brasil a Classe Hospitalar e Domiciliar se consolidou de maneira diferenciada nos estados e municípios que oferecem esse tipo de atendimento educacional. Em Salvador na Bahia, iniciou no ano de 2001 por duas vertentes de trabalho: o convênio da Secretaria Municipal de Educação com uma ONG e a mesma parceria firmada diretamente com uma unidade Hospitalar.
Inicialmente esta ONG apresentou um projeto de ação que possibilitasse às crianças e adolescentes em tratamento de saúde e afastados da escola comum, ter acompanhamento escolar, juntamente com um projeto pedagógico aos setores competentes da Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer – SECULT, que após avaliação, firmou a parceria possibilitando as visitas aos hospitais e Domicílios oferecendo o serviço pedagógico nas unidades que tivessem interesse.
          Em paralelo, um hospital de grande porte, em Salvador, construiu através de uma médica pediatra, um projeto pedagógico da Classe Hospitalar e solicitou uma parceria com a SECULT, já que se faz necessário uma equipe pedagógica para que o trabalho aconteça. Essas duas ações tiveram o apoio da Secretaria de Educação do Município de Salvador, que disponibilizou uma equipe docente, bem como materiais didáticos para a efetivação do trabalho pedagógico nas unidades hospitalares e domiciliares.
          Mensalmente, a Secretaria Municipal de Educação, recebia relatórios técnicos, com dados que demonstrava o trabalho desenvolvido nos hospitais e domicílios, através da organização dos projetos pedagógicos estruturados e atividades educativas desenvolvidas pela equipe docente e pedagógica, como também o quantitativo de alunos pacientes atendidos em cada unidade hospitalar e domiciliar.
          Houve no decorrer dos anos um avanço significativo no quantitativo de unidades atendidas e, conseqüentemente, na disponibilidade de professores por parte do poder público, a fim de efetivar o trabalho pedagógico proposto nos convênios de parceria. Em 2001, a ONG iniciou o trabalho em 3 hospitais e em 2010 já contava com o total de 11 hospitais, 4 casas de apoio e 8 alunos atendidos em suas residências/domicílios.
          Porém, ao final de 2010, a parceria entre o poder público e a ONG foi interrompida.  A partir dessa data, a Secretaria Municipal de Educação assume integralmente a coordenação e estruturação do trabalho de Classe Hospitalar e Domiciliar em Salvador, não havendo mais nenhuma ação isolada, possibilitando que esse atendimento pedagógico tivesse sua formatação redimensionada de acordo com a nova proposta de gestão participativa da rede municipal.
          A equipe docente refletiu e reestruturou a sua dinâmica profissional, adotando novas posturas e construindo conceitos que consolidaram sua prática às orientações da educação da rede Municipal de Ensino de Salvador, estabelecendo também uma nova relação com a unidade hospitalar ou domiciliar onde desempenhavam suas atividades docentes, pautadas na autonomia, ética, compromisso e responsabilidade.
          Atualmente, a equipe conta com quarenta e oito pedagogos, três professores licenciados em música, duas coordenadoras pedagógicas (uma geral e outra de uma unidade especifica) e uma supervisora, atuando em treze hospitais, três casas de apoio e quatorze alunos em atendimento domicílio residência, que recebem as mesmas orientações e formações por parte da Secretaria Municipal de Educação.
 
4.    TEMATIZAÇÃO DA PRATICA: UM FIO CONDUTOR PARA A FORMAÇÃO CONTINUADA EM SERVIÇO
 
          Diante da complexidade do fazer pedagógico no ambiente hospitalar e domiciliar, a Formação Continuada em Serviço (FCS) dos professores que atuam como docentes nessa modalidade de ensino, caracteriza-se como elemento primordial no aprimoramento da equipe técnica e pedagógica na construção de práticas educativas que possibilitem a aprendizagem dos alunos beneficiados por esse atendimento educacional diferenciado.
          Nessa perspectiva, a Formação Continuada em Serviço estimula a discussão e reflexão diante da necessidade do fortalecimento de uma política pública que garanta o direito a alunos pacientes, a continuar seu processo de escolarização, cenário no qual o professor é agente fundamental.
O professor é visto como um profissional que deve aperfeiçoar sua prática diante da atuação reflexiva do seu trabalho pedagógico. Assim, o perfil do professor desta modalidade de ensino sustenta-se num tripé de competência docente, equilíbrio emocional e uso de escuta sensível.  Ceccim (1997) aborda a escuta pedagógica para agenciar conexões, necessidades intelectuais, emoções e pensamentos, como pontos importantes para serem recuperados no ambiente escolar, sobretudo hospitalar. Segundo este autor, “a escuta não se limita ao campo da fala ou do falado, [mais do que isso],...” (p.31) busca perscrutar os mundos interpessoais que constituem nossa subjetividade, a fim de compreender o sujeito em sua completude. Nesta perspectiva, a formação continuada do professor em serviço da Classe Hospitalar e Domiciliar da SECULT utiliza como pressuposto a Tematização da Prática que dá sustentação aos encontros.
          É preciso entender o que significa tematização da prática. Tematizar é olhar para algo e tratá-lo como um objeto de reflexão, levantando teorias a seu respeito. E por que "da prática"? Porque consiste em analisar as propostas didáticas desenvolvidas em sala de aula para estudar as teorias que ajudarão os docentes a perceber as intervenções necessárias para o ensino dos conteúdos de maneira significativa e funcional, visando o avanço no processo de aprendizagem dos alunos, percebendo assim que prática e teoria estão inter-relacionadas.
          Segundo Weisz(2009), a Tematização da Prática significa em sua essência, a análise que parte da prática documentada para explicar as hipóteses didáticas subjacentes ao trabalho do professor, tendo como objetivo a realidade estudada, a reflexão da rotina escolar dentro do hospital e nos domicílios (casas de apoio e residência).
          Esse modelo de formação se opõe à tradicional, visão rígida da formação de professores, que oferece um corpo de temas, idéias e teorias para aplicar em sala de aula. Para esta autora, "tematizar é fazer com que o professor seja capaz de desentranhar as teorias que guiam a prática pedagógica real" (2009, p.17), refletindo sobre o cotidiano do seu trabalho docente.
          Através de registros de vídeo, áudio, planejamentos de atividades, estudos em grupo, observações in lócus, pesquisas direcionadas a situações reais, estudos de casos, dentre outras estratégias, os professores tem a possibilidade de discutirem sobre a realidade pedagógica que estão imersos e dessa forma associar essa prática às teorias especificas que dão sustentação a elas, podendo redimensioná-la a partir de uma reflexão coerente, por considerar que o professor é um profissional autônomo que desenvolve o seu conhecimento no próprio processo de construção e reconstrução de sua prática reflexiva.
          A tematização da pratica perpassa pela reflexão constante da práxis pedagógica. A palavra reflexão vem do verbo latino reflectere, que significa "voltar atrás". É, portanto, repensar, retornar continuamente aos caminhos já percorridos, reconsiderar os dados disponíveis, reexaminar a prática pedagógica de forma crítica e criteriosa numa busca constante de significado. É o conceito mais utilizado para se referir às novas tendências da formação de professores.
          Torna-se necessário para a eficácia desse modelo de formação uma mudança na cultura da equipe docente e técnico pedagógico, onde todos devem se perceber enquanto agentes geradores de mudança e como parte significante no processo de avaliação das ações pedagógicas. Esta prática estimula a formação de profissionais reflexivos, colaborativos e acima de tudo pesquisadores.
          Especificamente no trabalho de Classe Hospitalar e Domiciliar em Salvador, a experiência de ter a formação continuada em serviço de uma equipe composta por 51 professores, se traduz em momentos de grandes desafios e construções, pois a diversidade de ambientes e realidades encontradas nos hospitais e domicílios propicia debates e estruturações pedagógicas significativas.
A prática docente com crianças e adolescentes em tratamento de saúde, sejam hospitalizados ou em atendimento domiciliar, exige flexibilidade, dinamismo, criatividade, compreensão, ética, humanidade, respeito, empatia e sensibilidade para perceber qual o limite de cada aluno paciente. Assim, a intervenção pedagógica visa restabelecer os vínculos com o cotidiano escolar, atuando com competência docente para o desenvolvimento psíquico e cognitivo do escolar hospitalizado, já que a hospitalização traz a ruptura da rotina,impacto no cotidiano e na convivência familiar.
O trabalho pedagógico em hospital e em domicílio, não possui uma única forma de acontecer. É salutar que o professor se reconheça como um pesquisador do seu fazer docente, buscando novas respostas para novas e velhas perguntas, percebendo-se como um agente que pode muito contribuir para o processo de transformação das vidas dos alunos pacientes, fazendo a diferenças em seu processo de escolarização e auxiliando-o na reflexão de sua condição de vida e saúde em nome da superação do paradigma de meros pacientes para se tornarem agentes do seu processo de desenvolvimento intelectual.
Para tanto, a formação continuada em serviço é um caminho a ser trilhando no cotidiano da pratica docente. Um dos grandes desafios encontrados nesse modelo de formação é a necessidade de garantir o oferecimento de teorias e condições para aprimorar a prática desse professor em formação, onde a equipe docente poderá refletir, (re)considerar, (re)organizar, (re)significar, produzir e revisar saberes, levantar hipóteses, interpretar a realidade, dentre outras ações, tendo como foco a sua prática e, principalmente, a aprendizagem dos alunos.
 
5.    METODOLOGIA
 
           Os estudos na área das ciências sociais têm valorizado a pesquisa qualitativa como uma possibilidade investigativa para descrever e explicar os fenômenos, ganhando espaço no âmbito da educação.
          Para a busca de informações que dêem embasamento à explicação e capacidade de reflexão dos fatos, foi utilizada neste trabalho a pesquisa qualitativa por possuir um conjunto de diferentes técnicas que possam descrever um sistema complexo de significados. As características desse tipo de pesquisa são relevantes, uma vez que possibilita a compreensão e interpretação da realidade, ao passo que também faz uma análise a partir da subjetividade dos fatos observáveis.
          Segundo Triviños (1987), a abordagem metodológica da pesquisa qualitativa, possui características próprias considerando que ela é descritiva; que o pesquisador não se ocupa apenas dos resultados, mas, principalmente do processo; possui um campo de atuação onde ocorrem os dados a serem analisados; o pesquisador cuida de analisar os dados de forma indutiva, considerando a realidade e a subjetividade dos fatos.
          Nesta perspectiva e, além de uma pesquisa bibliográfica que teoricamente fundamentou o trabalho, foi realizado para o delineamento da investigação cientifica o estudo de caso, pelo caráter de profundidade e detalhamento, nascido do desejo de entender o fenômeno social e complexo da formação continuada do professor em serviço que atua nas Classes Hospitalares e Domiciliares de Salvador. 
          Segundo Merriam (1998), o estudo de caso qualitativo é uma descrição e análise intensiva de um fenômeno ou unidade social. É também caracterizado como uma pesquisa empírica que investiga o fenômeno no contexto delimitado da vida real, focando esforços em uma unidade de análise.
           Segundo Gil, o estudo de caso é como um "estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, permitindo seu amplo e detalhado conhecimento” (GIL, 2004, p. 54). Desta forma, trata-se de uma pesquisa empírica que investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto real. Assim, foi realizado um recorte do campo e dimensão em que o trabalho se desenvolveu, ou seja, o grupo de professores da Classe Hospitalar e Domiciliar da Secretaria de Educação, Cultura Esporte e Lazer, no município de Salvador-Ba, o qual desenvolve um plano de ação com vistas à formação continuada desses profissionais que atualmente desenvolvem sua função docente nas Classes Hospitalares e Domiciliares de Salvador.
          Utilizando-se de múltiplas fontes de evidência, para a coleta dos dados, algumas técnicas como a análise de documentos e a observação direta foram utilizadas objetivando solucionar o referido problema da pesquisa: Como acontece a formação continuada dos professores em serviço que atuam nas Classes Hospitalares e Domiciliares da cidade de Salvador – Ba?
          Desta maneira, a análise de documentos (Plano de ação para a formação continuada, atas de ACs – atividade complementar de planejamento, Fichas de cadastramento de professor), foram importantes a fim de confirmar as informações e ampliar as evidencias de outras fontes. Com a observação direta pode-se conhecer o processo de formação dos professores e obter aspectos da realidade por meios da utilização dos sentidos não se deixando contaminar por opiniões e interpretações próprias, observando e registrando dados necessários e importantes para a pesquisa através da construção de um protocolo, não desvinculando a pesquisa de campo com a teoria.
 
6.    ANÁLISE DOS RESULTADOS
 
Com o objetivo de delinear aspectos referentes a formação continuada dos professores que atuam nas Classes Hospitalares e Domiciliares em Salvador, foram analisadas informações coletadas através da técnica de observação direta do cotidiano de trabalho destes profissionais, bem como a análise de documentos como o plano de ação para formação deste grupo específico, fichas de cadastramento dos professores e das informações sistematizadas nas Atas das reuniões pedagógicas.
Para o desenvolvimento dessa pesquisa, a Formação Continuada é concebida como um dos aspectos fundamentais para a atuação do professor, sobretudo porque proporciona construção de novos saberes e o desenvolvimento profissional, independente do contexto onde o mesmo realiza sua práxis.
Partindo desse pressuposto, neste estudo, buscaram-se através de observações diretas da prática pedagógica, leituras de registros escritos pelos docentes e diálogos focados nessa temática, observar como os professores que atuam nas Classes Hospitalares e Domiciliares de Salvador-Ba concebem e realizam seu processo de Formação Continuada em Serviço, além de analisar o seu fazer pedagógico.
A maioria dos professores tem curso de especialização, seja na área do ensino, psicologia, psicomotricidade, psicopedagogia, supervisão e orientação educacional; alguns são Mestrandos em Educação e destacam como igualmente importante a formação inicial e continuada para o desempenho da função docente, além disso, atuam em regime de 20h, sendo sua maioria em regime de 40 horas semanais em Classes Hospitalares ou em Atendimento Domiciliar. Com esses resultados, nota-se que a maioria dos professores dedica-se exclusivamente à prática docente nas Classes Hospitalares e Domicliares, além das experiencias academicas paralelas que contribuem para o fortalecimento do trabalho pedagógico em hospitais e domicílios (residências, casas de apoio).
No ano de 2012 foi elaborado um Plano de Ação construído junto com os professores das Classes Hospitalares e Domicliares e 80% das ações traçadas foram alcançadas como se observou nos registros analisados: reelaboração de fichas, oficina de relatórios, oficina de musicalização, grupos de estudos nos A/Cs, minuta da portaria que regulamenta a Classe Hospitalar no Municipio de Salvador, elaboração das diretrizes para Classe Hospitalar, redimensionamento do acompanhamento nas Unidades, discussões e debates com registros nas atas dos A/Cs com participação ativa do grupo de professores.
           O referido plano de ação, na concepção dos professores, é visto como positivo na consolidação de uma pratica voltada para a formação continuada em serviço dos professores que atuam nesta modalidade de ensino. Houve unanimidade entre o corpo docente em afirmar que a pratica reflexiva sobre sua ação educativa e das respostas dos alunos expressam que a formação dos professores da Classe Hospitalar, sob o viés da tematização da pratica, tem contribuido de forma significativa para o fazer docente.
Esta ação tem possibilitado interações e discussões pertinentes, voltadas à prática educativa no contexto hospitalar e domiciliar, fortalecem o espírito de equipe e coletividade, caracterizam uma relação dialógica, geram reflexões e auto- avaliações sobre o perfil do profissional que atua nessa modalidade de atendimento pedagógico, proporcionam participação e autonomia do professor à medida que o mesmo pode opinar/sugerir sobre questões que devem fazer parte da sua formação.
Importante ressaltar que muitos agentes desta pesquisa, investem individualmente no seu processo de Formação Continuada em Serviço, ampliando seu capital intetelctual, a medida que participam de congressos, seminários, jornadas pedagógicas, debates, palestras, cursos em áreas especificas de sua atuação, o que contribuem grandemente para o crescimento pessoal e profissional, favorecendo, dessa forma, uma prática docente crítico-reflexivo.
 
7.    CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
A formação continuada em serviço para professores que atuam em classes hospitalares e domiciliares se traduz em uma mola propulsora para o alcance de práticas pedagógicas que contribuam para a construção do conhecimento dos alunos pacientes atendidos, bem como para a consolidação de saberes e posturas para o professor que atua nesse contexto.
Nessa perspectiva as ações traçadas pela SECULT, juntamente com o corpo docente reforça a necessidade de reflexão e construção de características específicas para a atuação em ambientes complexos, desencadeando a melhoria significativa do processo de ensino e aprendizagem e a atuação docente.
A formação continuada em serviço pautada na tematização da prática possibilita o movimento continuo da ação-reflexão-ação da prática docente, contribuindo para que esse professor estabeleça uma relação dialógica com o objeto de conhecimento, objetivando a sustentabilidade do fazer pedagógico.
          Neste processo de estudo, foi notória a necessidade de garantir a formação continuada desse professor que especificamente, desenvolve sua função docente em Classe Hospitalar e Domiciliar, no sentido de favorecer uma educação de qualidade para o aluno paciente que se encontra afastado da escola comum em virtude do seu estado de adoecimento, bem como pelas situações adversas nos campos emocional e pedagógico que surgem no cotidiano dos hospitais e domicílios e, frente a estas, o professor precisa esta preparado para lidar com equilíbrio e competência profissional.
 
REFERÊNCIAS
 
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MERRIAM, S.Qualitative research and case study applications in education. San Francisco: Jossey-Bass, 1998.
 
VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo: Atlas, 6 ed., 2005.
 

 


[1]Pedagoga (UNEB), Pós-graduada em Supervisão Escolar (UEFS), pós-graduada em Educação Especial (ACEB/FETRAB), Mestranda em Educação (USAL – Buenos Aires/Argentina), professora da Classe Hospitalare Domiciliarda SECULT – prefeitura de Salvador, atuando no Hospital Martagão Gesteira e na Casa de Apoio à Criança Solange Fraga do Hospital Santa Izabel.
 
[2]Pedagoga (UCSal), Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica (UCSal), Especialista em Terapia Holística (UNEB), Mestranda em Educação (USAL- Buenos Aires/Argentina), professora de Jovens e Adultos do Estado da Bahia SEC- atuando no Centro Estadual de Educ. Magalhães Netto-CEA, professora da Classe Hospitalar da SECULT- prefeitura de Salvador, atuando no Hospital Santa Izabel- Erik Loeff.
 
[3]Pedagoga (UCSAL), Pós-graduada em Coordenação Pedagógica (UNIFACS), pós-graduada em Educação Especial (ACEB/FETRAB), Mestranda em Educação (USAL – Buenos Aires/Argentina), Coordenadora Pedagógica das Classes Hospitalares e Domiciliares da SECULT – Prefeitura de Salvador.

Autor: http://www.docentesnohospitalssa.blogspot.com.br/
 
   
 

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